Não temos como voltar atrás em muita coisa na nossa vida. Um prejuízo financeiro é dinheiro que foi embora e não volta mais. Um bola de futebol na vidraça que se espatifa vai gerar um bafafá danado. A entrega de uma mercadoria para um local errado somente poderá ser consertado fazendo outra entrega, mas o tempo perdido não volta. Um ano perdido na escola por não ter alcançado as notas mínimas, um bom negócio não concretizado por falta de destreza, tudo isso e muito mais não tem volta. Pode parecer uma visão pessimista da vida, dos atropelos do cotidiano e para os mais despreparados é um prato cheio para a falta de esperança e fé.

Já é hora do almoço, Olati desce as escadas do prédio onde trabalha no centro da cidade. Aquele verão se apresentava com toques de inverno: vento, frio, nublado. Era semana de Natal de um ano qualquer, aquele ano em que as semanas se parecem muito iguais e um pouco sem graça. Nosso herói foi almoçar fora de casa, como de costume para os dias tumultuados, conseguir almoçar em casa era sempre uma vitória.

As lojas estavam enfeitadas, músicas e luzes da festa cristã. O restaurante onde Olati chegou estava cheio de enfeites. O almoço veio, a comida naquele dia foi degustada sem pressa, curtindo o tempero, os sabores contrastantes, os aromas chamativos. Ao final uma sobremesa seguida de um cafezinho. Até aí tudo bem, até que um senhor, aparentando seus 70 e poucos anos assenta do lado de Olati.

Começam uma conversa do tipo papo beleza, onde um fala: Beleza? O outro responde: Beleza e você? Beleza também. O velho faz uma pergunta: onde você pensa estar daqui a 35 anos? Olati fica pensativo, naquele instante percebe algo de familiar nos traços daquele homem, mas preocupa-se em respondê-lo: Daqui a 35 anos quero estar de bem com a vida, com família formada, estabilidade financeira, saúde. Mas como você vai chegar até lá com tudo isso? Pois são objetivos difíceis de conseguir! – exclama firme o velho homem.

Existem perguntas que foram feitas para não serem perguntadas. Tudo isso criou uma angústia em Olati, aquela que começa no meio da barriga, um soco de dentro para fora. O tempo parou naquele instante. Pensar no futuro em época de Natal é sempre mais angustiante. Se desejamos saúde, precisamos ter bons hábitos – foi o primeiro insight do nosso herói. Para alcançar paz e harmonia na vida, esse é mais difícil se ter uma fórmula, mas cultivando amizades e bons relacionamentos se chega até lá. Dinheiro no bolso, em condições para uma vida digna, também é resultado de boas poupanças e acertar nos investimentos feitos ao longo da vida. Tudo isso são relações causais que não necessariamente significam acerto.

Aquela reflexão, que não deve ter durado mais de 1 minuto, foi crescendo como uma espiral, a cada conclusão uma nova pergunta, a cada nova pergunta uma nova conclusão. Num triz o pensamento certo para responder ao velho do seu lado: não adianta nada se não sabermos mudar, se não querermos mudar, se não acreditarmos que tudo muda, que nada é para sempre, a única certeza é que vamos mudar, o mundo vai mudar, uma metamorfose sem fim, do pó vieste ao pó voltarás, nada se cria, tudo se transforma. E ! O velho não estava ali, havia ido embora desapercebidamente.

No fim do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa.

Pense nisso e bons projetos!


Apenas para lembrar:
 “A Christmas Carol”, inspiração desta estória, é um livro de Charles Dickens. Com várias traduções no Brasil, sendo a mais correta Um Cântico de Natal, o livro foi escrito em menos de um mês originalmente para pagar dívidas, mas tornou-se um dos maiores clássicos natalinos de todos os tempos. Charles Dickens o descreveu como seu “livrinho de Natal”, e foi primeiramente publicado em 19 de dezembro de 1843, com ilustrações de John Leech. A história transformou-se instantaneamente num sucesso, vendendo mais de seis mil cópias em uma semana.

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