Tive grandes mestres os quais me orgulho muito. Um deles me ensinou a ver o Mundo sob um olhar crítico mas ponderado. Aproveitando o momento tumultuado que vivemos, resolvi entrevistar o Prof. Célio Cerafim, o qual fui seu aluno de História um tempinho atrás aqui no Colégio Tiradentes da PMMG.

Célio, bondespachense da gema, 51 anos, licenciado em História, especialização na área da educação e mestrado em Gestão e Avaliação Pública pela Universidade Federal de Juiz de Fora, mais de 25 anos como professor. Conversamos muita coisa, a seguir selecionei os principais pontos deste ótimo bate-papo.

1) Muito se diz que nossa atual Crise Econômica em todo o País tem sido fundamentada em uma Crise Política, Efeitos da Crise Internacional e Crise de Energia. Ao seu ver, isso faz sentido? Por quê?

A questão é complexa, mas percebo que a crise econômica brasileira é estrutural e tem sido aprofundada pela forma como estamos inseridos no contexto global. Não são poucos os historiadores que criticam nossa condição (histórica) de participação de forma dependente e subalterna no mercado internacional. Noutras palavras, o país tem uma participação subordinada na “divisão internacional do trabalho”, uma vez que nossas exportações se baseiam, em grande parte, em produtos primários (commodities: minério de ferro, soja, café, dentre outros). Nessa mesma linha de raciocínio, o contexto internacional de crescimento ou de desaceleração do consumo mundial desses produtos tende a afetar positiva ou negativamente os rumos da economia brasileira. Hoje pode-se citar como exemplo a China: a desaceleração de sua economia tem afetado de modo direta a nossa, uma vez que ela é grande importadora de produtos brasileiros como o minério de ferro e a soja.
O país precisa reverter esse quadro e uma de suas opções é investir pesado na educação, incluindo nas instituições públicas de ensino práticas pedagógicas e currículos voltados não somente para a cidadania, mas também para a ciência e a tecnologia. No entanto, esse é um projeto de médio e longo prazos. É preciso ter em mente que as reformas necessárias deverão ser capazes de permitir uma mudança do sistema produtivo (produção de bens mais elaborados), proporcionando ao Brasil um maior domínio tecnológico, transformando a nação mais competitiva, portanto, menos vulnerável.
Hodiernamente todos nós temos sentido os efeitos da crise: perda do poder aquisitivo, desemprego e insegurança quanto ao futuro, dentre outros. Mesmo não sendo um especialista na área econômica, minha percepção é de que a crise internacional afetou o equilíbrio do país que foi mantido durante o governo de Lula e o primeiro mandato do governo Dilma, mas hoje a política econômica não consegue mais sustentar o modelo adotado.
Outra questão posta é a crise política que o atual governo tem passado. Ela pode aprofundar ainda mais a crise econômica, visto que o Parlamento deixa de votar reformas/projetos necessários para enfrentamento do problema. Aí é preciso lembrar que não são apenas reformas no setor econômico, mas também de natureza política, tributária, educacional, trabalhista, melhorar infraestrutura do país e tornar a gestão pública mais eficiente.
Quanto à crise de energia, a resolução da questão passa por investimentos no setor de energias alternativas e o racionamento. Não é concebível pensar em desenvolvimento sem resolver a questão energética do país que tem uma relação estreita com a má gestão do seu sistema gerador.

2) Historicamente temos passado por diversos sistemas de poder, já fomos Império, Ditadura, Presidencialismo e até mesmo um curto período de Parlamentarismo. Estamos amadurecendo ou ainda engatinhando nossa Democracia?

Quando analisamos os períodos de nossa história, seja colonial, imperial e republicano, podemos afirmar com maior segurança que estamos em um processo de amadurecimento/consolidação da democracia. Isso pode ser comprovado pelo fato de milhões de brasileiros exercerem regularmente sua cidadania através do voto, poderem se organizar e expressar livremente, com maior desenvoltura e mobilidade. É inegável que temos um processo eleitoral funcional é respeitado. No entanto, o conceito de democracia é bastante amplo e sua aplicabilidade deve contemplar os mais diversos atores sociais. Nesse aspecto, nossa democracia é falha porque a participação popular ainda é bastante restrita e grande parte da população brasileira ainda não desfruta dos bens e serviços que o Estado deveria garantir: uma boa escola pública, bons hospitais, garantia de segurança, dentre outros aspectos. Costumo afirmar para meus alunos e pares: temos uma cultura política de cidadania bastante limitada.
3) Avaliando o momento o qual vivemos, estamos mais próximos do início de mais uma década perdida em relação ao desenvolvimento da Sociedade Brasileira ou vem pela frente uma grande mudança? Caso seja mudança, como será?

A expressão “década perdida” refere-s aos anos 80, fase de retração econômica, baixo crescimento do PIB; período de grande turbulência, com uma crise de hiperinflação devastadora na vida dos cidadãos brasileiros, sobremaneira, os mais pobres. Acho que o contexto político é outro, mas corremos sérios riscos. Isso porque nos últimos anos temos atravessado períodos de desempenho medíocre da economia, com estagnação em 2014/2015. E as perspectivas para esse ano não são das melhores: ritmo em queda da cadeia produtiva. Não sou um especialista na área, mas tenho acompanhado com bastante preocupação a crise econômica, visto que quem mais sofre seus efeitos perversos são os menos favorecidos. O mau desempenho econômico traz o risco iminente de aumento das desigualdades e perda de algumas conquistas dos últimos anos. O governo tem de procurar manter a situação sob controle, reduzindo de imediato o déficit público. É preciso deixar claro que ele terá que “cortar na própria carne”, decisão esta que nossa tradição patrimonialista não permite fazer. Portanto, para o momento acredito que seja necessário tomar decisões mais pontuais (não revolucionárias), porém, capazes de abrir caminhos para reformas de natureza estrutural. Não se muda uma nação por decreto.

4) Observando localmente, a cidade de Bom Despacho viveu um apogeu com o Agronegócio (pecuária leiteira principalmente) e hoje em dia o nosso PIB tem grande participação da área de Serviços (rendas da Educação e Saúde, principalmente) e Indústria. Essa mudança tem sido benéfica para a construção de um município próspero? O que Prefeitura e Estado deveriam fazer para tornar a cidade um pólo de desenvolvimento?

A diversificação econômica é importante. São nos momentos de crise que melhor compreendemos essa questão. Imaginemos a seguinte situação: se houvesse uma grande crise no setor calçadista, qual das cidades sofreria mais seus efeitos? Bom Despacho ou Nova Serrana? Minha percepção é de que o “rompimento” do ciclo econômico (agronegócio), permitindo uma maior diversificação econômica, tem sido benéfico para a cidade porque está possibilitando a potencial entrada de novas lideranças econômicas, e a partir delas, novos atores políticos no cenário da cidade. Visões de mundo diferentes permitem mudanças mais criativas, diferentes, necessárias.
Há mais de 20 anos estou fora da cidade, apesar de ter fortes vínculos com a mesma (família), mas tenho notado que Bom Despacho mudou para melhor. Todavia, para que a cidade seja polo de desenvolvimento, suas lideranças deverão montar projetos que incluam não apenas incentivos fiscais, mas também projetos sustentáveis, melhoria da infraestrutura e promoção de uma mão de obra mais qualificada, formando jovens e adultos para o trabalho.

5) Dentro da perspectiva que todo País se forma pela Educação e isso é base para gerar e sustentar o Desenvolvimento, a realidade do Ensino Público pode ser mudada? Como? Quais ações poderiam ser feitas ? Você acredita em revolucionar com o que se tem em mãos de recursos e grau de formação de professores?

Minha experiência profissional (professor e gestor) e formação acadêmica (mestrado em Gestão e Avaliação da Educação Pública) permitem afirmar com convicção que a escola pública poderá melhorar muito seus indicadores educacionais. Mas para isso será necessário que de fato governo federal, estados e municípios trabalhem em regime de colaboração (que já é previsto em lei). Essa colaboração é importante porque grande parte dos municípios brasileiros não conseguem sozinhos sustentar seus projetos educacionais, manter planos de carreira que paguem o Piso Nacional do professor e ainda são desprovidos de recursos básicos – pessoal qualificado e recursos materiais. Há casos isolados de escolas que conseguem boas notas no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) com poucos recursos, contando apenas com uma competente equipe gestora e um projeto pedagógico bastante articulado. Entretanto, para revolucionar a educação do Brasil se faz necessário a implementação de políticas públicas que melhorarem os salários e a formação de gestores e professores. Educação de qualidade social exige uma melhor formação desses atores. Aqui há que se chamar atenção para o fato de que a formação acadêmica deve ser vinculada à prática. Nesse sentido, podemos citar como exemplo a formação que muitos professores e gestores tem feito: o ingresso em mestrados profissionais. O formato desses cursos não permite que os profissionais se afastem de suas atividades e suas dissertações são focadas na realidade de sua prática escolar.

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Professor MSc. Célio Serafim.

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