No início do Pasquim, faz uns 40 anos, Millôr Fernandes publicou uma
charge em que
um sujeito, com uma faca atravessada de costa a peito, esclarecia: “só
dói quando eu rio”.

No momento que vivemos parece que é o contrário: só dói quando eu não rio.

Em Minas, Deputados querem se dar mais privilégios na hora de responder
por seus crimes.

Em Brasília, a situação não é caótica, não é kafkeana, não é
inacreditável: é surreal. Ou será
o domínio do tal do realismo fantástico?

1) Renan Calheiros preside e dá a última palavra sobre uma investigação
em que o investigado. .. é ele.
2) Renan ameaça pedir habeas corpus no STF para que a PF seja impedida
de periciar os documentos
que ele mesmo forneceu para sua defesa.
3) Renan alega que está sendo condenado sem que lhe seja assegurado o
direito de defesa.
4) Renan diz que é impossível separar a pessoa dele da pessoa do
Presidente da Senado. Por isto, as
petições são assinadas pelo Presidente da casa, não por ele.
5) Renan diz que está sendo obrigado a fazer prova negativa. Garante ter
provado que tinha dinheiro para
pagar a pensão da filha.
6) … Acrescente outras falas do realismo fantástico que você possa ter
ouvido … Depois, considere:

a) Como pode alguém presidir a apuração de seus próprios crimes?
b) Se o próprio Renan forneceu os documentos, como pode pretender exigir
que sua atenticidade não seja verificada?
c) Mais direito de defesa do que o Renan está tendo, só se for a
imunidade que só costuma ser atribuída aos deuses, aos déspotas e a
Pinochet.
d) A confusão que o Renan faz entre a pessoa dele a e função de
presidente do Senado tem precedentes: “l´etat c´est mois” (Louis XIV).
E bem que poderia ser completada com o que parece ser a proposta
dele: “après mois, le déluge.” (Louis XV).
e) Nem a prova que se pede é negativa, nem se trata de provar que tinha
meios: trata-se de fazer prova positiva de que pagava
a pensão com dinheiro dele e não com dinheiro repassado pelo
Claudinho do Dr. Juca.

Temos aqui uma oportunidade rara de usar todos os termos pejorativos que
podemos usar contra um político, sem
ter que demonstrar a propriedade de cada palavra: calhorda, salafrário,
patife, bilontra, espertalhão,
falaz, maquiavélico, solerte, sonso, trapaceiro, velhaco, bargante,
finório. Mas podemos resumir tudo numa
palavra única: safado.

Enfim, o Millôr me salva: ouvir o Renan falando só me dói quando eu não
rio. Quando não rio deste país de políticos medíocres
e eleitores mais medíocres ainda por elegê-los.

Se ao menos o Pasquim ainda existisse para nos fazer rir de tanta
safadeza…

– fernando

PS: Antes que eu me esqueça – será que os deputados mineiros vão aprovar
mais uma blindagem a favor da bandidagem
em que vivem?

(*) Fernando Cabral é mineiro de Bom Despacho e reside em Brasília

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