Introdução
Recentemente gravei um vídeo em frente à Trump Tower, em Nova York, refletindo sobre algo que muitas vezes passa despercebido no planejamento de projetos de engenharia: os riscos que vêm de fora do canteiro de obras. A geopolítica, os mercados de commodities e as cadeias globais de suprimentos têm impactado diretamente cronogramas, orçamentos e decisões técnicas. Um exemplo concreto é o comunicado recente de fornecedores de equipamentos e componentes elétricos informando aumento significativo no custo de matérias-primas estratégicas, como o cobre (+25%) e a prata (+130%), insumos fundamentais em projetos de energia, automação e infraestrutura. Em projetos que dependem de cadeias globais de fornecimento, essas variações rapidamente se traduzem em revisão de custos, renegociação contratual e pressão sobre cronogramas.
Esses movimentos também se conectam a eventos geopolíticos recentes, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, tensões envolvendo a Venezuela, disputas no Oriente Médio envolvendo Irã, Iraque e Estados Unidos, além da instabilidade em regiões estratégicas como o Estreito de Ormuz, que influencia diretamente o comércio global de energia e contribuiu para a elevação recente do barril de petróleo em cerca de 15%. Para projetos de engenharia, esses fatores representam riscos concretos — tanto em projetos internacionais quanto em empreendimentos executados localmente.
Além da volatilidade dos insumos, entram em jogo regras de comércio internacional, legislações internas de países envolvidos na cadeia de suprimentos, políticas de compras de grandes empresas e governos, além das próprias relações diplomáticas entre países, que podem alterar tarifas, restrições comerciais, disponibilidade de equipamentos e prazos de entrega. Assim, decisões tomadas em ambientes políticos e econômicos globais acabam influenciando diretamente a execução técnica e financeira de projetos de engenharia.
Riscos globais e impactos locais em projetos
Projetos de engenharia realizados em ambientes internacionais ou integrados a cadeias globais estão expostos a um conjunto ampliado de riscos. Pesquisas sobre projetos de construção internacionais mostram que, além dos riscos técnicos tradicionais, esses empreendimentos precisam lidar com fatores políticos, econômicos, regulatórios, culturais e cambiais, que aumentam significativamente a complexidade da tomada de decisão e da gestão do projeto. Esses fatores podem afetar diretamente custos, cronogramas e a viabilidade econômica do empreendimento (Gibson & Walewski, 2004).
Outro ponto destacado pela literatura é que projetos internacionais tendem a apresentar maior nível de incerteza justamente pela diferença entre ambientes institucionais, práticas de mercado e condições operacionais entre países. Instabilidades políticas, alterações regulatórias ou restrições comerciais podem impactar contratos, financiamento e fornecimento de equipamentos, ampliando a probabilidade de atrasos e sobrecustos (Gibson & Walewski, 2004).
Estudos mais recentes reforçam que entre os principais riscos identificados em projetos internacionais estão variações no preço de materiais, indisponibilidade de insumos, mudanças regulatórias, oscilações cambiais e cronogramas irreais. Esses fatores costumam afetar diretamente a execução das obras e a sustentabilidade financeira dos projetos, especialmente em ambientes de alta volatilidade econômica (Guimarães, Blanchet & Cimon, 2024).
Quando combinados com eventos geopolíticos — como conflitos armados, sanções econômicas ou restrições comerciais — esses riscos tornam-se ainda mais relevantes. Um aumento abrupto no preço de um metal estratégico ou do petróleo, por exemplo, pode alterar custos logísticos, equipamentos importados, componentes elétricos e até contratos de EPC. O que começa como um evento internacional rapidamente se transforma em um impacto direto no orçamento e no cronograma de um projeto industrial.
Considerações finais
Diante desse cenário, a gestão de projetos no Brasil precisa incorporar de forma mais estruturada a análise de riscos internacionais. O primeiro passo é reconhecer que riscos geopolíticos e de mercado fazem parte do ambiente de projetos, mesmo quando a obra ocorre inteiramente em território nacional. Monitoramento de commodities, análise de cadeias de suprimentos, avaliação cambial e leitura de cenários internacionais devem fazer parte do processo de planejamento e controle, especialmente em projetos industriais intensivos em materiais e equipamentos importados. Em muitos casos, decisões tomadas em mercados globais acabam impactando diretamente custos, prazos e a disponibilidade de insumos nos projetos executados localmente.
Além disso, práticas de gestão de riscos precisam ser integradas desde as fases iniciais do projeto. Isso inclui identificação sistemática de riscos, análise de probabilidade e impacto, definição de contingências e estratégias contratuais adequadas para lidar com variações de custos ou interrupções de fornecimento. Ferramentas de análise de cenários, revisões periódicas de mercado e integração entre planejamento, suprimentos e gestão contratual tornam-se essenciais para reduzir a exposição a eventos externos. Projetos bem planejados não eliminam a volatilidade do ambiente global, mas ampliam significativamente a capacidade de antecipar impactos e tomar decisões estruturadas.
Outro aspecto fundamental é compreender que projetos internacionais ou dependentes de cadeias globais também estão sujeitos a regras de comércio internacional, legislações internas de diferentes países, acordos diplomáticos e políticas econômicas nacionais. Mudanças em tarifas, sanções econômicas, exigências regulatórias, restrições de exportação ou importação e alterações em acordos comerciais podem alterar custos, prazos e até a viabilidade de determinados fornecimentos. Por isso, profissionais envolvidos na gestão de projetos precisam desenvolver uma visão mais ampla do ambiente institucional internacional, acompanhando temas como comércio exterior, regulações técnicas, acordos bilaterais e dinâmica das relações diplomáticas. Compreender esses elementos, estudar seus possíveis impactos e incorporá-los à análise de riscos torna-se cada vez mais necessário para administrar projetos de engenharia em um mundo interconectado.
Referências
Gibson, G. E., & Walewski, J. (2004). Risks of international projects: Reward or folly? University of Texas at Austin / Construction Industry Institute.
Guimarães, L. G. A., Blanchet, P., & Cimon, Y. (2024). Risk analysis in international construction projects: A look at the prefabricated wood construction sector in the Province of Quebec. Buildings, 14(8), 2563. https://doi.org/10.3390/buildings14082563