1. Quando falar menos vira estratégia
No começo da minha jornada em consultoria e análise de negócios, eu acreditava que valor profissional se media na velocidade das respostas. Entrava em reunião como técnico em final de campeonato: cheio de opinião, solução pronta, pouco espaço para a bola quicar no campo dos outros. O cliente mal terminava a frase e eu já encaixava o problema em algum molde conhecido, como quem força um checklist antigo numa situação nova.

Com o tempo, fui percebendo outra lógica. Projetos andavam melhor quando eu falava menos, fazia perguntas simples, ouvia de verdade e deixava as situações amadurecerem antes de apontar qualquer caminho. Quando eu segurava a pressa de “resolver” e prestava atenção nas relações, nas resistências e nos não ditos, as próprias pessoas começavam a enxergar saídas que não estavam em nenhum slide.

Se eu soubesse disso em 2001, com quase 25 anos, teria economizado alguns tropeços. Naquele momento, eu confundia barulho com liderança e quantidade de ideias com qualidade de contribuição. Anos depois, encontrei em “Ah, se eu soubesse…”, de Richard Edler, executivos descrevendo o mesmo arrependimento: falar demais, decidir cedo demais, tentar controlar o que só precisava de tempo e escuta.

2. Nove profissionais e uma pergunta
Recentemente, fiz um experimento simples. Convidei nove profissionais da engenharia e áreas afins, de projetos e idades diferentes, para um encontro rápido, com uma única pergunta: “o que você gostaria de ter sabido bem no início da sua carreira?”. Não pedi currículo nem lista de conquistas; pedi aquilo que normalmente não entra em apresentação: as lições que custaram caro.

As histórias se repetiam em pontos importantes. Pressa em ser “sênior” em dois ou três anos, aceitar tudo para “mostrar serviço”, medo de fazer perguntas e parecer fraco nas primeiras reuniões com clientes. Em várias falas, eu me enxergava aos 25: ansioso para provar valor, pouco disposto a admitir que ainda precisava ouvir mais e falar menos.

3. Três lições que se cruzam
Ao juntar o livro do Edler com o que ouvi desses profissionais, três lições aparecem com força: tempo, risco e sucesso.

Tempo e maturidade
Os depoimentos do livro mostram gente que tentou controlar tudo – pessoas, prazos, resultados – e descobriu depois que as melhores mudanças seguem outro ritmo. Entre os engenheiros, a tradução é direta: carreira é maratona, não tiro curto; reconhecimento não acompanha a ansiedade, e muitas respostas só surgem depois de projeto entregue, erro cometido e retrabalho feito.

Risco e escolhas
Muitos dos entrevistados por Edler se arrependem menos do que fizeram e mais do que deixaram de fazer por prudência excessiva. Entre os engenheiros, isso aparece nas transições adiadas: mudar de área, trocar de empresa, aceitar um projeto grande demais para o conforto, mas necessário para crescer. Hoje, vários admitem que teriam se mexido antes se tivessem entendido que ficar parado também é um tipo de risco.

Sucesso, visto de perto
No livro, sucesso deixa de ser apenas cargo, salário e status; ganham espaço palavras como integridade, gratidão e coerência entre vida e trabalho. Nas conversas com engenheiros, a mudança é parecida: o “orgulho” de estar sempre ocupado dá lugar à vontade de cuidar da saúde, preservar relações fora do trabalho e escolher ambientes em que seja possível aprender sem se descaracterizar.

4. Para que serve olhar para trás
Aos 25 anos, eu teria ganhado tempo se alguém tivesse dito, com todas as letras: não confunda velocidade com profundidade; escutar é parte do trabalho, não um intervalo entre falas. Essa percepção não veio num estalo, mas da decisão de revisitar a própria trajetória com mais honestidade – algo cada vez mais reconhecido como ferramenta de desenvolvimento de carreira.

É isso que aproxima o livro do Edler das histórias que ouvi e da minha própria experiência: usar o passado como atalho, não como âncora. Em vez de perguntar “por que não me contaram isso antes?”, a questão passa a ser “o que eu faço com o que já sei agora?”. Transformar cicatriz em mapa e tropeço em aviso é um jeito simples de não repetir o mesmo erro com outro nome.

5. Daqui a 10, 15 ou 20 anos
Daqui a 10, 15 ou 20 anos, alguém pode te perguntar, num corredor ou num café: “o que você gostaria de ter sabido no começo da sua carreira?”. A resposta não será inventada na hora; ela está sendo construída hoje, nas reuniões em que você escolhe escutar melhor, nas decisões em que prioriza maturidade em vez de pressa e nos riscos que aceita correr porque fazem sentido.

Não é preciso esperar décadas para descobrir que sucesso não é só título, que tempo não é inimigo e que ouvir pode ser a forma mais eficiente de agir. O recado que vem dos executivos de Edler, dos nove engenheiros e desta crônica é o mesmo: futuro profissional não é sorteio, é consequência de pequenos ajustes de rota, repetidos dia após dia. A pergunta que fica é direta: o que o seu eu de daqui a 10, 15 ou 20 anos vai agradecer por você ter aprendido agora – e não do jeito mais difícil?

 

Referências

Center for Creative Leadership. (2025, 12 novembro). Active listening techniques: Best practices for leaders.

Edler, R. (1995). If I knew then what I know now: CEOs and other smart executives share wisdom they wish they’d been told 25 years ago. G. P. Putnam’s Sons.

Edler, R. (s.d.). Ah, se eu soubesse… (trad. port.).

Engineernow. (2025, 11 fevereiro). What I wish I knew before becoming an engineer….

Luan Saldanha. (2025, 30 junho). 8 principais experiências compartilhadas no livro “Ah, se eu soubesse”. LinkedIn.

Michael Page. (2025, 25 fevereiro). 10 self-reflection questions for career growth.

Mentorloop. (2023, 7 junho). Reflection on work improves career performance.

Nicky Acuña-Ocana. (2024, 2 dezembro). The importance of self-reflection for career success.

Ronaud, R. (2019, 31 janeiro). Livro “Ah, se eu soubesse…” – Resenha / Resumo.

Wesleyan University Career Center. (2022, 27 outubro). 100 reflection questions for personal and career growth.


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