Complexidade: um conceito além da dificuldade

O termo complexidade atravessa diferentes áreas do conhecimento e, por isso, não possui um significado único quando retirado de seu contexto disciplinar. Na matemática, aparece associado a uma classe específica de números; na biologia e na química, pode caracterizar estruturas constituídas pela associação de diferentes componentes; na psicologia, integra conceitos relacionados à organização de conteúdos psíquicos; na filosofia e nas ciências dos sistemas, remete às relações entre elementos que não podem ser adequadamente compreendidos apenas de forma isolada. Essa diversidade não significa ausência de um núcleo conceitual comum. Ao discutir a arquitetura da complexidade, Simon (1962) observa que sistemas físicos, biológicos e sociais, embora distintos, podem compartilhar propriedades estruturais relevantes, abrindo espaço para uma compreensão da complexidade que ultrapassa os limites de uma única disciplina. Assim, antes de utilizar “complexo” como simples qualificativo para aquilo que parece difícil, extenso ou sofisticado, é necessário compreender o que o termo representa em cada campo e quais características justificam seu emprego.

Essa distinção torna-se especialmente importante na engenharia e na gestão de projetos, áreas em que expressões como “projeto complexo”, “obra complexa”, “contrato complexo” ou “megaprojeto complexo” são empregadas com frequência, nem sempre com o mesmo significado. Um marco relevante nessa discussão é o trabalho de Baccarini (1996), que identificou que, apesar do uso disseminado da expressão project complexity, o conceito recebia pouca atenção específica na literatura de gerenciamento de projetos. O autor propôs compreendê-lo a partir de dois elementos fundamentais — diferenciação e interdependência — considerando dimensões organizacionais e tecnológicas e associando sua gestão à necessidade de integração. Posteriormente, Geraldi, Maylor e Williams (2011), a partir de uma revisão sistemática da literatura, demonstraram que a complexidade dos projetos não pode ser reduzida a uma única variável, propondo cinco dimensões para sua análise: complexidade estrutural, incerteza, dinâmica, ritmo e complexidade sociopolítica. Esses trabalhos evidenciam que tratar complexidade apenas como sinônimo de dificuldade empobrece um fenômeno que interfere diretamente nas decisões sobre como projetos devem ser estruturados e gerenciados.

É a partir dessa diversidade conceitual que esta resenha desenvolve sua análise. O objetivo não é construir uma teoria geral da complexidade, mas percorrer diferentes usos do termo — na biologia, filosofia, matemática, psicologia e engenharia — para então concentrar a discussão na complexidade aplicada à gestão de projetos. Esse percurso é relevante porque permite separar três ideias que no cotidiano profissional frequentemente aparecem misturadas: aquilo que é difícil, aquilo que é complicado e aquilo que é efetivamente complexo. No campo dos projetos, essa distinção possui consequências práticas: complexidade influencia a escolha de estruturas de governança, mecanismos de integração, formas de planejamento, competências gerenciais e respostas à incerteza. Geraldi et al. (2011) tratam a complexidade justamente como uma variável contingencial capaz de afetar decisões subsequentes na prática de gerenciamento; Baccarini (1996), por sua vez, situa a interdependência no centro de sua conceituação. Portanto, compreender o significado de complexidade não constitui apenas uma questão terminológica: é condição para reconhecer adequadamente o tipo de sistema que está sendo gerenciado e, consequentemente, selecionar abordagens compatíveis com sua natureza.

Complexidade na biologia

Na biologia, o termo “complexo” aparece associado à formação de uma unidade funcional pela interação entre diferentes componentes. Um exemplo particularmente claro são os complexos macromoleculares. Meldal et al. (2015), ao apresentarem o Complex Portal do European Bioinformatics Institute, adotam como definição de complexo proteico estável uma entidade constituída por duas ou mais macromoléculas que interagem entre si e possuem função biológica demonstrada. Nesse sentido, o caráter complexo não decorre de a estrutura ser necessariamente difícil de compreender, mas de componentes distintos passarem a constituir uma entidade funcional por meio de suas relações. A biologia oferece, assim, um exemplo bastante concreto do sentido relacional do termo: as partes existem individualmente, mas determinadas propriedades e funções surgem de sua associação.

Complexidade na filosofia

Na filosofia, a complexidade encontra uma formulação particularmente influente no pensamento de Edgar Morin. Para Morin (2015), a própria palavra complexus remete ao que é “tecido junto”, sendo a complexidade constituída pela associação inseparável de elementos heterogêneos, acontecimentos, ações, interações, retroações e incertezas. A contribuição do autor está justamente em questionar formas de conhecimento que fragmentam excessivamente a realidade e perdem as relações existentes entre suas partes. Complexidade, nessa perspectiva, não significa simplesmente acumular variáveis ou tornar uma explicação mais difícil; significa reconhecer simultaneamente a unidade e a diversidade, as partes e o todo, as relações e as incertezas presentes no fenômeno observado. Essa interpretação fornece uma importante ponte conceitual para a engenharia e a gestão, pois desloca a atenção dos componentes isolados para aquilo que acontece entre eles.

Complexidade na matemática

Na matemática, “complexo” possui um significado formal específico e não deve ser confundido com a complexidade estudada pela teoria dos sistemas ou pela gestão de projetos. Um número complexo é constituído por uma parte real e uma parte imaginária e pode ser representado na forma a + bi, sendo a e b números reais (Abramson, 2021). O exemplo matemático é relevante para esta resenha justamente porque demonstra a polissemia do termo: chamar determinado número de complexo não significa afirmar que ele é difícil ou imprevisível, mas identificá-lo como pertencente a uma classe matemática rigorosamente definida. Portanto, a matemática evidencia que a palavra “complexo” pode adquirir significados técnicos próprios conforme a disciplina, razão pela qual sua utilização na gestão de projetos também exige uma definição conceitual explícita, e não apenas sua adoção como adjetivo genérico.

Complexidade na psicologia

Na psicologia, “complexo” designa um conjunto ou sistema de ideias, impulsos e conteúdos relacionados que compartilham determinada tonalidade emocional e podem exercer influência, muitas vezes inconsciente, sobre atitudes e comportamentos. A American Psychological Association (2018) registra que o termo foi introduzido por Carl Jung para caracterizar conteúdos do inconsciente pessoal e ressalta que sua utilização técnica não deve ser reduzida à conotação exclusivamente patológica adquirida na linguagem cotidiana. Novamente, a característica central está na associação: memórias, emoções, imagens e impulsos tornam-se relevantes não apenas isoladamente, mas pela maneira como se organizam e passam a atuar conjuntamente. O emprego psicológico do termo reforça, portanto, a recorrência de um sentido relacional de “complexo”, ainda que aplicado a um objeto completamente diferente daquele estudado pela engenharia.

Complexidade na engenharia

Na engenharia, o conceito ganha caráter sistêmico. Watson, Mesmer e Farrington (2020), em publicação técnica da NASA sobre engenharia de sistemas, apresentam a complexidade de um sistema como relacionada à sua intricácia e à possibilidade de compreender as interações que ocorrem internamente e entre o sistema e seu ambiente. A mesma abordagem identifica, entre propriedades de sistemas complexos, agregação, emergência, interação e não linearidade, destacando que propriedades podem surgir no sistema integrado sem estarem presentes individualmente nos subsistemas. Essa leitura é particularmente útil para a engenharia porque impede que complexidade seja confundida apenas com quantidade de peças ou sofisticação tecnológica: um sistema pode possuir muitos componentes e permanecer analisável por decomposição, enquanto outro se torna complexo porque as interações entre seus elementos modificam o comportamento do conjunto.

Complexidade na gestão de projetos

Na gestão de projetos, a literatura evoluiu de uma visão predominantemente estrutural para modelos multidimensionais. Baccarini (1996) propôs compreender a complexidade dos projetos a partir de diferenciação e interdependência, distinguindo componentes organizacionais e tecnológicos e sustentando que a resposta gerencial à complexidade exige integração. Em grandes projetos de engenharia, Bosch-Rekveldt et al. (2011) ampliaram essa análise por meio do modelo TOE, organizando fatores de complexidade nas dimensões técnica, organizacional e ambiental e mostrando que porte, isoladamente, é insuficiente para caracterizar um projeto complexo. Geraldi, Maylor e Williams (2011), por sua vez, sistematizaram a literatura em cinco dimensões — estrutural, incerteza, dinâmica, ritmo e sociopolítica — e trataram a complexidade como variável contingencial capaz de influenciar decisões sobre processos, competências e formas de gerenciamento. Tomados em conjunto, esses trabalhos permitem compreender a complexidade de projetos não como sinônimo de trabalho difícil, mas como uma condição multidimensional na qual estrutura, interdependências, incerteza, mudanças e relações sociopolíticas interferem na maneira como o projeto se comporta e, consequentemente, na forma como deve ser administrado.

Área Citação curta verificada Leitura para o artigo
Biologia “an entity that contains two or more macromolecules” — Meldal et al. (2015) Complexo como entidade constituída pela associação de componentes. (PubMed Central (PMC))
Filosofia “Complexus means ‘that which is woven together’.” — Morin (2019) Complexo como aquilo que é tecido junto. (UNESCO Courier)
Matemática “A complex number is the sum of a real number and an imaginary number.” — Abramson (2014) “Complexo” possui significado técnico próprio e não significa “difícil”. (OpenStax)
Psicologia “a group or system of related ideas or impulses that have a common emotional tone” — APA (2018) Aparece a ideia de elementos relacionados constituindo um sistema. (APA Dictionary)
Engenharia “Complexity can be directly measured by the number of components and their interactions.” — Jones (2021) Traz a complexidade diretamente para componentes e interações, muito aderente à engenharia. (NASA Technical Reports Server)
Gestão de projetos “project complexity can be defined in terms of differentiation and interdependency” — Baccarini (1996) Diferenciação + interdependência. (ScienceDirect)

Diferença entre complexidade e aquilo que é apenas complicado ou difícil

No uso cotidiano, complexo, complicado e difícil frequentemente aparecem como sinônimos, mas essa equivalência não se sustenta quando o tema é gestão de projetos. Algo complicado pode exigir conhecimento especializado, possuir muitas etapas ou demandar elevado esforço para ser compreendido e executado, sem necessariamente apresentar elevada complexidade sistêmica. Snowden e Boone (2007), no framework Cynefin, distinguem explicitamente os contextos complicados dos complexos: nos primeiros, as relações entre causa e efeito existem e podem ser identificadas mediante análise especializada, ainda que não sejam imediatamente evidentes; nos contextos complexos, por outro lado, essas relações somente podem ser compreendidas retrospectivamente, à medida que padrões emergem das interações do sistema. Dessa forma, dificuldade está mais associada ao esforço necessário para resolver um problema, enquanto complexidade está relacionada à natureza das relações existentes dentro dele. Um equipamento sofisticado, por exemplo, pode ser extremamente difícil de projetar e ainda operar segundo relações conhecidas e analisáveis; já um projeto envolvendo diversas organizações, stakeholders, tecnologias e interesses pode apresentar comportamento menos previsível mesmo quando suas atividades técnicas, individualmente, não são particularmente difíceis.

Na gestão de projetos, essa diferença pode ser aprofundada pelo conceito de Baccarini (1996), para quem a complexidade estrutural decorre fundamentalmente da diferenciação — quantidade e variedade dos elementos — e da interdependência — grau em que esses elementos estão relacionados. Assim, acrescentar atividades, disciplinas ou especialistas pode tornar um projeto maior ou mais complicado; o que efetivamente eleva sua complexidade é a maneira como essas partes passam a depender umas das outras. Geraldi, Maylor e Williams (2011) ampliam essa leitura ao demonstrar que a complexidade dos projetos também envolve incerteza, dinâmica, ritmo e fatores sociopolíticos, além da estrutura propriamente dita. Essa distinção possui consequência prática: problemas difíceis ou complicados podem frequentemente ser enfrentados com decomposição, especialização, procedimentos e análise; em projetos complexos, esses mecanismos continuam necessários, mas são insuficientes quando empregados isoladamente, pois o desempenho do empreendimento passa a depender da gestão das conexões, das mudanças e das respostas emergentes entre seus componentes. Em síntese, um projeto não é complexo simplesmente porque é difícil; ele é complexo quando a interação entre suas partes passa a ser determinante para compreender e gerenciar seu comportamento.

Considerações Finais

Compreender a complexidade é relevante para a gestão de projetos porque a maneira como um projeto é interpretado condiciona a maneira como ele será gerenciado. Se complexidade for tomada apenas como sinônimo de dificuldade, a resposta gerencial tenderá a concentrar-se em mais detalhamento, mais especialistas, mais controles e maior decomposição do problema. Entretanto, a literatura mostra que a complexidade também decorre das relações entre os elementos do projeto. Desde Baccarini (1996), diferenciação e interdependência aparecem como elementos centrais; Bosch-Rekveldt et al. (2011) demonstram que, em grandes projetos de engenharia, essa condição envolve fatores técnicos, organizacionais e ambientais; e Geraldi et al. (2011) acrescentam dimensões como incerteza, dinâmica, ritmo e aspectos sociopolíticos. Em um projeto complexo, portanto, conhecer bem cada parte continua sendo necessário, mas não é suficiente: é preciso compreender como pessoas, organizações, tecnologias, decisões, interfaces e ambiente se relacionam e modificam o comportamento do empreendimento.

O estado da arte indica que o campo avançou significativamente desde as primeiras formulações, mas ainda não converge para uma definição única de complexidade de projetos. Bakhshi et al. (2016), após examinarem mais de 420 trabalhos, identificaram diferentes escolas de pensamento e concluíram que permaneciam diferenças relevantes entre as perspectivas utilizadas para explicar o fenômeno. Revisões mais recentes confirmam essa evolução sem eliminar a diversidade conceitual. Lafhaj et al. (2024), ao analisarem 49 estudos sobre complexidade em projetos de construção, verificaram que interdependência e multiplicidade de partes ou participantes estão entre os elementos mais recorrentes nas definições, enquanto número de stakeholders, escopo e objetivos e estrutura de gestão aparecem entre os principais critérios de avaliação da complexidade. Isso reforça um ponto central desta resenha: a complexidade de um projeto não está simplesmente no fato de ele ser trabalhoso ou tecnicamente sofisticado, mas na configuração das relações que precisam ser administradas.

A literatura recente também recomenda cautela diante da ideia de que complexidade seja, por definição, algo negativo. A meta-análise de Hu et al. (2023), baseada em 22 estudos e 77 tamanhos de efeito, mostra que diferentes dimensões da complexidade possuem relações distintas com o sucesso do projeto e com o sucesso de sua gestão. Portanto, o problema não está simplesmente em “eliminar” a complexidade — algo muitas vezes impossível —, mas em reconhecê-la, caracterizá-la e estabelecer mecanismos de gestão compatíveis com sua natureza. Para a prática da gestão de projetos, esse talvez seja o principal avanço conceitual: deixar de utilizar “complexo” como adjetivo genérico para projetos difíceis e tratá-lo como uma condição do sistema que pode ser estudada, caracterizada e considerada nas decisões de governança, planejamento, organização, integração e controle. Nesse sentido, compreender a complexidade não encerra a discussão; ao contrário, amplia a capacidade do gestor de compreender o projeto que efetivamente tem diante de si.

 

Referências

Abramson, J. (2014). Precalculus. OpenStax. https://openstax.org/books/precalculus/pages/1-introduction-to-functions

American Psychological Association. (2018, April 19). Complex. In APA dictionary of psychology. https://dictionary.apa.org/complex

Baccarini, D. (1996). The concept of project complexity—A review. International Journal of Project Management, 14(4), 201–204. https://doi.org/10.1016/0263-7863(95)00093-3

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Bosch-Rekveldt, M., Jongkind, Y., Mooi, H., Bakker, H., & Verbraeck, A. (2011). Grasping project complexity in large engineering projects: The TOE (Technical, Organizational and Environmental) framework. International Journal of Project Management, 29(6), 728–739. https://doi.org/10.1016/j.ijproman.2010.07.008

Geraldi, J., Maylor, H., & Williams, T. (2011). Now, let’s make it really complex (complicated): A systematic review of the complexities of projects. International Journal of Operations & Production Management, 31(9), 966–990. https://doi.org/10.1108/01443571111165848

Hu, Z., Wu, G., Zheng, J., Zhao, X., & Zuo, J. (2023). Unravelling effects of project complexity on project success and project management success: A meta-analytic review. Journal of Civil Engineering and Management, 29(6), 542–560. https://doi.org/10.3846/jcem.2023.19553

Lafhaj, Z., Rebai, S., AlBalkhy, W., Hamdi, O., Mossman, A., & Alves Da Costa, A. (2024). Complexity in construction projects: A literature review. Buildings, 14(3), Article 680. https://doi.org/10.3390/buildings14030680

Meldal, B. H. M., Forner-Martinez, O., Costanzo, M. C., Dana, J., Demeter, J., Dumousseau, M., Dwight, S. S., Gaulton, A., Licata, L., Melidoni, A. N., Ricard-Blum, S., Roechert, B., Skrzypek, M. S., Tiwari, M., Velankar, S., Wong, E. D., Hermjakob, H., & Orchard, S. (2015). The Complex Portal—An encyclopaedia of macromolecular complexes. Nucleic Acids Research, 43(D1), D479–D484. https://doi.org/10.1093/nar/gku975

Morin, E. (2015). Introdução ao pensamento complexo (E. Lisboa, Trad.; 5ª ed.). Sulina. (Obra original publicada em 1990).

Simon, H. A. (1962). The architecture of complexity. Proceedings of the American Philosophical Society, 106(6), 467–482.

Snowden, D. J., & Boone, M. E. (2007). A leader’s framework for decision making. Harvard Business Review, 85(11), 68–76.

Watson, M. D., Mesmer, B. L., & Farrington, P. A. (2020). Engineering elegant systems: Theory of systems engineering (NASA/TP–20205003644). National Aeronautics and Space Administration. https://ntrs.nasa.gov/citations/20205003644

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