Este artigo é baseado na palestra apresentada no PHD Summit, realizada em Belo Horizonte, em 10 de julho de 2025, com o tema: “Formação de Engenheiros Líderes: O Papel da Academia e do Mercado na Construção de Competências para o Futuro.” Veja aqui o material completo.
1. Evolução da Gestão de Projetos
A prática da gestão de projetos é tão antiga quanto as grandes realizações da humanidade. Desde as pirâmides do Egito (~4.000 a.C.), passando pela construção das caravelas na era das grandes navegações (~1.500 d.C.), até os marcos das revoluções industriais (a partir do século XVIII), os projetos sempre exigiram planejamento, coordenação e controle — ainda que intuitivos.
Com a consolidação das ciências da administração no século XX, a gestão de projetos passou a se apoiar em fundamentos mais técnicos. Autores como Taylor (organização científica do trabalho), Fayol (funções administrativas), Ford (produção em série), Drucker (gestão por objetivos), e posteriormente, especialistas como Merrow, Darci Prado e Ricardo Vargas, contribuíram para transformar práticas empíricas em processos gerenciais estruturados.
A evolução da engenharia de projetos no Brasil acompanhou essas transformações de maneira gradual e setorial.
2. Gestão de Obras no Brasil: Um Panorama por Períodos
A seguir, apresento uma síntese da evolução da gestão de obras no Brasil, com foco nas estruturas predominantes e no perfil das obras em cada período:
1970 a 1990 – Centralizado e Desconectado
Perfil predominante: Obras de infraestrutura pesada (estradas, barragens, usinas).
Atuação técnica: Participação pontual de consultorias internacionais.
Modelo de gestão: Forte centralização decisória, com pouca integração entre as disciplinas.
Características operacionais: Baixo uso de ferramentas de apoio à decisão e processos desconectados entre planejamento e execução.
1990 a 2010 – Centralizado Leve e Parcialmente Conectado
Transformações: Emergência de empresas nacionais com maior protagonismo técnico.
Setores atendidos: Ampliação de obras industriais (mineração, siderurgia, energia).
Gestão: Início da flexibilização da cadeia decisória, com adoção de algumas boas práticas de gerenciamento.
Conectividade: Avanço na integração entre áreas de engenharia, suprimentos e execução, ainda que de forma parcial.
2010 até hoje – Equipe de Gestão e Projetos Conectados
Cenário atual: Atuação crescente de consultorias das BIG FOUR e novos players especializados.
Setores abrangidos: Expansão para construção civil corporativa, hospitais, plantas industriais.
Modelo de atuação: Estruturação de equipes de gestão de projetos, com maior foco em contratos, prazos e controle.
Conectividade: Elevado grau de integração entre disciplinas técnicas, contratuais e operacionais.
3. Contemporaneidade: Desafios e Reflexões Atuais
O papel do engenheiro na gestão de obras vai além da técnica. As demandas atuais exigem liderança, inteligência relacional, domínio de ferramentas digitais e visão de negócio. Durante o PHD Summit, provocamos reflexões importantes:
Por que ainda há resistência à qualificação formal e à educação continuada?
Por que o conhecimento técnico ainda é subvalorizado frente à improvisação e à cultura do “jeitinho”?
Como formar engenheiros líderes em um ambiente em que a prática informal é mais reconhecida que o domínio técnico-metodológico?
A resposta está na valorização de competências como propósito, aprendizagem contínua, equilíbrio emocional e construção colaborativa de soluções.
4. Futuro da Gestão de Obras: Para Onde Vamos?
As tendências para os próximos anos já estão em curso. A gestão de obras se tornará cada vez mais digital, colaborativa e industrializada.
Squads e Estrutura Horizontal
Substituição de modelos hierárquicos por times multidisciplinares com autonomia operacional.
Decisões mais rápidas, comunicação fluida e foco na entrega de valor.
Foco em Relacionamento, Criatividade e Cocriação
Integração entre áreas técnicas, comerciais e operacionais desde a fase inicial.
Valorização de soft skills no ambiente da construção.
Construção Modular e Pré-fabricação
Aplicação crescente de conceitos de fabricação industrial na construção (design for manufacturing and assembly – DFMA).
Ganhos em produtividade, qualidade e sustentabilidade.
Gestão Online e Preditiva
Adoção de ferramentas baseadas em inteligência artificial, gêmeos digitais e big data.
Monitoramento em tempo real e análises preditivas para decisões antecipadas.
5. Considerações Finais
A gestão de obras no Brasil atravessa um processo de amadurecimento técnico e cultural. A consolidação de equipes multidisciplinares, o uso de tecnologias digitais e a valorização da educação continuada são pilares para o avanço do setor.
Contudo, ainda convivemos com frases que revelam um padrão cultural resistente à formação técnica e acadêmica:
“Não tenho MBA, mas tenho as manha.”
“Estudo é bobagem, vale a prática.”
“Para quê CREA?”
“Influencer ganha mais que Engenheiro.”
Esse tipo de discurso nos leva a uma pergunta essencial: por que ainda há tanto negacionismo educacional no Brasil?
Essa negação do conhecimento formal compromete não apenas o desenvolvimento individual, mas também o avanço coletivo da engenharia nacional. Valorizar o estudo, os conselhos profissionais, a troca estruturada de experiências e o aprendizado contínuo não é uma questão de vaidade acadêmica, mas de responsabilidade técnica e ética com os projetos que impactam a sociedade.
Formar engenheiros com visão sistêmica, capacidade de liderança e disposição permanente para aprender é o único caminho para uma engenharia de obras mais eficiente, segura e inovadora.
Como afirmado na palestra que inspirou este artigo:
“Professores transformam civilizações. E, na Engenharia, precisamos urgentemente de transformação.”
