* foto ilustrativa

Se tem uma coisa que o Natal me ensinou cedo é que, às vezes, em vez de ganhar presente, a gente ganha serviço. Em 1989, com 13 anos e uma Monark barra circular cinza, meu pai me “convocou” pra trabalhar no fim de ano. O destino era o Império dos Armarinhos, loja do Seu Arísio na Praça da Matriz, e meu chefe direto, o Marcinho. O esquema era simples: o povo comprava “na notinha” e, quando esquecia de pagar, quem saía pra cobrar era o menino aqui, de pasta na mão e cara de tímido.​

A Praça da Matriz era um Natal à parte: Ialmo, banca do Peninha, Via Presentes, Xuá Lanches, sorveteria Bola de Neve. As vitrines da Via Presentes exibiam relógio Casio, agenda eletrônica, câmera fotográfica de filme, tudo que fazia o olho de qualquer adolescente brilhar. Eu passava de bicicleta por aquele cenário, mas meu lado era outro: pegar a lista com o Marcinho, subir na Monark e ir bater palma nos portões, lembrando a turma da tal notinha esquecida.​

No meio dessas voltas, teve um episódio que marcou. Uma das cobranças era na Av. Olegário Maciel, casa de uma menina que eu já brilhava os olhos só de ver na escola. Paixonite clássica de adolescente. Cheguei, bati palma, coração disparado. Quem abriu a porta foi ela. Perguntou o que eu queria. Na hora, travou tudo: esqueci valor, prazo, notinha, mundo. Só consegui dizer, quase sussurrando, que a mãe dela passasse na loja porque o Marcinho queria falar com ela. Voltei pra Praça com a mesma notinha na pasta e a cara mais vermelha que as bolas de Natal da vitrine.

Entre um portão amigável, um cachorro bravo e um “volto lá semana que vem”, fui entendendo que cobrança não é só dinheiro: é relação, vergonha, prioridade, respeito. Também aprendi que comércio em cidade pequena vive muito de conversa olho no olho, de não “ficar mal na praça”. No fim daquele dezembro, eu continuava querendo relógio Casio e câmera da vitrine, mas já sabia bem melhor o peso de uma assinatura numa notinha.

Aprendizado daquele 1989: nem todo presente vem em caixa embrulhada. Às vezes ele vem em forma de lista de devedores, chefe chamado Marcinho, loja do Arísio, uma paixão adolescente na Av. Olegário Maciel e muita pedalada na Monark barra circular. Pesado na época, valioso até hoje.

Pense nisso e bons projetos!

Nota: produzido com auxílio da IA Perplexity Comet, mas com tempero bom-despachense.

Posts Relacionados

Deixe um comentário